O Poder da Eucaristia nas almas piedosas

Por Pe. Cosme Navarro,
Pároco de Manilha 

Há alguns anos atrás, quando era estudante de teologia em Roma, tive a oportunidade de ir à França, nas férias, para fazer um breve tempo de estágio pastoral em uma paróquia da Diocese de Saint-Étienne. Lá conheci a história de uma mística que viveu mais de cinquenta anos somente da Eucaristia, seu nome é Mara Robin. Impressionado com tal história, quis conhecer de perto sua vida e o local onde ela viveu. Deus me deu então a graça de ir a Châteauneuf-de-Galaure, sua cidade natal.

Neste mês, em que celebramos a Solenidade de Corpus Christi, penso que seja proveitoso escrever aqui um breve resumo da vida desta Serva de Deus. Que seu exemplo de vida nos ajude a viver de modo melhor o Mistério da Eucaristia, Presença Real de Deus na Terra.

Em Châteauneuf-de-Galaure, onde nasceu, viveu e morreu, cega e paralisada, Marta se alimentava de um alimento apenas: a sagrada Eucaristia. Em 1936, ela pediu, “da parte de Deus”, a um sacerdote de Lyon, o Padre Finet, que fosse fundado o primeiro “Foyer de Charité” (Lar de Caridade). Com o tempo, mais de sessenta foram fundados, no mundo inteiro.

Aos vinte anos de idade, Marta se sente chamada, a exemplo dos grandes místicos, a oferecer sua vida “pela conversão dos pecadores e a santificação das almas”. Descobrindo sua particular vocação ao sofrimento, ela redige uma carta estipulando seu total abandono a Deus. É quando, então, a paralisia toma conta dela, trazendo consigo sofrimentos indescritíveis.

Como acontece a todos os grandes mártires, é preciso que a noção de sacrifício seja abordada não como o fruto de uma vontade divina, mas como um dom de Amor livremente escolhido pelo místico, uma oferta de todo o seu ser para tomar sobre si a negatividade do mundo a ponto de ser, por isso, mutilado física e moralmente.

Durante uma visão, Marta recebe os estigmas de Cristo, uma espécie de confirmação da sua vocação. Todas as sextas-feiras, ela revivia a Paixão de Jesus Cristo e vivenciava o maior dos sofrimentos: o supremo abandono resultante da falta de Amor por parte da humanidade. Um vazio que ela, a cada crucificação, conseguia preencher com o Amor de Deus. Por isso, Marta dizia: “O sofrimento é a escola incomparável do verdadeiro Amor.”

Apesar da paralisia que progride incessantemente, Marta redige suas reflexões, mantém correspondências, recebe visitas sempre mais numerosas às quais ela oferece o gosto do esforço e da ressurreição permanentes. “Toda alma é um Getsêmani onde cada um deve beber, em silêncio, o cálice da sua própria vida”, dizia.

Em 1936, ela convida, “da parte de Deus”, o Padre Finet a iniciar um “Lar de Caridade, de Luz e de Amor” para a realização de retiros espirituais, o primeiro de inúmeros. Atualmente, estas comunidades “acolhem e congregam homens e mulheres que, a exemplo dos primeiros cristãos, partilham comunitariamente seus bens materiais, intelectuais e espirituais.”

Além dos sofrimentos que não cessam de aumentar, Marta sofre também implacáveis perseguições demoníacas, após as quais ela é encontrada ferida e vertendo lágrimas de sangue; um demônio que procurava, segundo ela, fazê-la crer que seu sofrimento não servia de nada. Vivificada, porém, pelo Amor incondicional que a anima, e encorajada pelas aparições regulares da Virgem Maria, ela nunca renunciou à sua vocação. Após sua última entrega de sacrifício, a visão, Marta permanecerá mais de cinqüenta anos deitada, sem dormir, sem beber e apenas se alimentando da Eucaristia.

“Esquecendo-me de mim mesma, eu quero fazer com que Deus seja amado por todas as almas, doando-me por todos incessantemente e sem medidas, doar-me, doar-me sempre…” dizia Marta Robin, sem dúvida uma das maiores místicas e mártires do nosso tempo. Na mais total discrição e humildade ela vivenciou o seu sofrimento, fruto amargo da nossa negatividade que ela purificou pelo poder do seu Amor. Como não nos conscientizarmos das nossas insuficiências diante de tanta abnegação? Não podemos desejar senão carregarmos nossas próprias cruzes com o máximo de perseverança e de Amor, afirmando todos os dias como Marta: “Elevar-se é tudo superar e se superar incessantemente.”

 Fonte: Passioniste.org.pf

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