Lectio Divina: Leitura orante da Bíblia

Por Pe. Cosme Damião Navarro,
Pároco de Manilha

A Lectio Divina, ou Leitura Divina, ou ainda Leitura Orante, é uma prática e método de oração, reflexão e contemplação praticado desde tempos antigos, particularmente nos mosteiros beneditinos. Consiste na prática de oração e leitura das Escrituras e tem o intuito de promover a comunhão com Deus e aumentar o conhecimento da Palavra de Deus.

Muitas vezes, usamos a desculpa de não sabermos qual a vontade de Deus para nossa vida. De fato, diante de tantas informações que nossa época nos dá, podemos ficar meio perdidos, sem saber o que fazer ou qual caminho a seguir. Porém, por meio da prática da Lectio Divina, criamos intimidade com a Palavra de Deus e, sendo assim, sem desculpas, passamos a conhecer melhor a sua vontade e qual rumo a ser tomado em nossa vida. De fato, a Palavra Divina “é lâmpada para os meus pés, e luz para o meu caminho” (Salmo 118,105).

No século XII, um monge, prior da Grande Cartuxa, Guigo II, elabora um método sistemático e orgânico da Lectio Divina e usa a imagem de uma escada (Scala Claustralium) que leva ao céu por meio  de quatro degraus espirituais: a lectio (leitura), a meditatio (meditação), a oratio (oração) e a contemplatio (contemplação).

Na Lectio (Leitura), toma-se o Texto Sagrado e faz-se a leitura lenta e cuidadosa do texto, não tanto com o objetivo de fazer uma exegese bíblica, mas sim o de escutar o que Deus fala ao leitor. Pode-se repetir a leitura quantas vezes for preciso, até que se sinta tocado, pelo Senhor.

Na Meditatio (Meditação), rumina-se a Palavra, busca-se perceber o que é que Deus fala àquele ou àquela que lê. Não é mais uma leitura, mas uma escuta da Palavra. “Fala, Senhor, teu servo escuta!” (1Sm 3,10).

Na Oratio (Oração), responde-se a Deus que antes falou. De acordo com o contexto, com a história pessoal de cada um naquele momento, deixa-se o coração derramar-se diante do Senhor. Se antes se escutou, agora responde-se a Deus. Pode ser uma súplica, ação de graças, petição, o que o coração mandar, enfim. É um diálogo com Deus e uma relação entre dois seres que se amam. A alma e Deus!

Na Contemplatio (Contemplação), já não há mais necessidade de palavras. O orante-leitor tomou contato com o texto escrito, leu, ou melhor, escutou a Voz que fala em seu coração. Responde a essa Palavra. E no último estágio, na Contemplação, cala-se, adora, entrega-se numa adoração muda e silenciosa.

Depois deste percurso, não podemos mais cruzar os braços. É preciso então colocar em prática o que foi revelado por Deus através destes pontos, ou seja, a Lectio Divina deve nos levar à actio (ação), à realização da vontade de Deus.

Segundo muitos mestres espirituais da Igreja, a Lectio Divina, constitui um dos instrumentos tradicionais mais característicos para se buscar a Deus. Que possamos criar familiaridade com a Lectio Divina, para conhecermos melhor Palavra de Deus, sua vontade e, enfim, o próprio Deus de Amor que se dignou falar conosco e escrever, com nossa vida, uma história de salvação.

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